"Verticalização” foi uma má escolha de nome para a lei que obrigava as alianças eleitorais a serem coerentes, nos estados como na União. O adjetivo “vertical” tem uma conotação ética que ultrapassa a coerência. Descreve quem não se dobra, quem não se horizontaliza moralmente por nenhuma conveniência. Quando derrubaram a verticalização foi como se legitimassem a falta de caráter. Deram licença aos políticos para embaralhar tudo de novo, a começar pela cabeça do eleitor. Cada região do país tem suas próprias realidades e peculiaridades políticas, dizem. A justificativa é muito pior do que o soneto. Reduz a coerência a uma questão de clima. A moral à geografia.
Muito na política é uma questão de semântica. Com o tal “avanço das esquerdas”, ou como quer que se chame o que está acontecendo na América Latina no remanso da onda neoliberal, vai se discutir muito a diferença entre populismo, demagogia e reformismo necessário — fora da velha máxima segundo a qual “demagogia” é o nome que se dá ao populismo bem-sucedido do adversário. Quando é que o populismo deixa de ser demagógico e passa a ser uma correta reavaliação de prioridades, ou “populista” deixa de ser nome feio e se torna sinônimo de representante realmente democrático da vontade de uma maioria? E, para complicar ainda mais, qual é a sutil diferença entre populismo de esquerda e populismo de direita? As discussões semânticas costumam se limitar a interpretações acadêmicas que não concluem nada. A verdadeira definição do vocabulário político se dá com a prática política e, principalmente, com o tempo. A História está cheia de gente que foi chamada de demagógica e acabou cultuada como heróis providenciais. E, claro, vice-versa. Dessa leva de novos líderes populares na nossa América, quais vão sobreviver à reação e quais vão ficar na História, e como o quê? E o mais destacado político brasileiro do momento — não o Lula, o Juscelino — deve ser caracterizado, exatamente, como?
O tempo também serve para qualificar a hipocrisia, essa outra constante do nosso vocabulário político. A hipocrisia nacional pode ser aguda ou amenizada pelo tempo. A última fase aguda da nossa hipocrisia começou com as revelações sobre as lambanças financeiras do PT, o partido que ostentava a ética, continuou com a oposição querendo caracterizar a corrupção como um mal endêmico da raça da esquerda, e chegou a uma apoteose com a declaração do Duda Mendonça de que tinha ficado chocado, chocado, com a proposta do PT de lhe pagar numa conta no exterior. Mas há hipocrisias que o tempo pulveriza e se integram à paisagem. Alguém se recorda do principal argumento para as privatizações no governo passado, o único exemplo conhecido no mundo de venda do patrimônio do Estado financiado pelo próprio Estado? A desculpa para a pressa e para os métodos nada transparentes? Elas iriam abater a dívida pública, que depois só se multiplicou. A razão era hipócrita, mas da categoria de hipocrisia crônica, comum, sem apoteose. Portanto do tipo que ninguém lembra, ou cobra.
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