Dei um copy & paste em toda matéria que estava no cache do google porque o site está fora do ar:
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OS FATOS OCULTOS
A mídia, em especial a Globo, omitiu informações cruciais na divulgação
do dossiê e contribuiu para levar a disputa ao 2º turno. Confira a íntegra da reportagemPor Raimundo Rodrigues Pereira
1.
Pode-se começar a contar a história do famoso dossiê que os petistas
teriam tentado comprar para incriminar os candidatos do PSDB José Serra
e Geraldo Alckmin pela sexta-feira 15 de setembro, diante do prédio da
Polícia Federal, em São Paulo. É uma construção pesada, com cerca de
dez pavimentos, de cor cinza-escuro e como que decorada com uma espécie
de coluna falsa, um revestimento de ladrilho azul brilhante, que vai do
pé ao alto do edifício, à direita da grande porta de entrada. Dentro do
prédio estão presos Valdebran Padilha e Gedimar Passos, ligados ao
Partido dos Trabalhadores e com os quais foi encontrado cerca de 1,7
milhão de reais, em notas de real e dólar, para comprar o tal dossiê.
Mas essa notícia é ainda praticamente desconhecida do grande público.
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Preocupação. “Tem de sair no Jornal Nacional”, exigiu o delegado Bruno ao entregar as fotos do dinheiro |
É
por volta das 5 da tarde. A essa altura, mais ou menos à frente do
prédio, que fica na rua Hugo Dantola, perto da Ponte do Piqueri, na
Marginal do rio Tietê, na altura da Lapa de Baixo, estaciona uma perua
da Rede Globo. Ela pára entre duas outras equipes de tevê: uma da
propaganda eleitoral de Geraldo Alckmin e outra da de José Serra.
Com o tempo vão chegando jornalistas de outras empresas: da CBN, da
Folha,
da TV Bandeirantes. E a presença das equipes de Serra e Alckmin provoca
comentários. Que a Rede Globo fosse a primeira a chegar, tudo bem: ela
tem uma enorme estrutura com esse objetivo. Mas como o pessoal do
marketing político chegou antes? Cada uma das duas equipes tem meia
dúzia de pessoas. A de Serra é chefiada por um homem e a de Alckmin,
por uma mulher. As duas pertencem à GW, produtora de marketing
político. Seus donos foram jornalistas: o G é de Luiz Gonzales, ex-TV
Globo, e o W vem de Woile Guimarães, secretário de redação da famosa
revista
Realidade, do fim dos anos 1960. Entre os jornalistas,
logo se sabe que foi Gonzales quem ligou para a Globo, avisando do que
se passava na PF.
E quem avisou Gonzales? Foi alguém da Polícia Federal? Foi alguém
do Ministério Público, de Cuiabá, de onde veio o pedido para a ação da
PF? Uma fonte no Ministério da Justiça disse a
CartaCapital que
as equipes da GW chegaram à PF antes dos presos, que foram detidos no
Hotel Ibis Congonhas por volta da 6 da manhã do dia 15 e demoraram a
chegar à sede da polícia. Gente da equipe da GW diz que a empresa soube
da história através de Cláudio Humberto, o ex-secretário de imprensa do
ex-presidente Collor, que tem uma coluna de fofocas e escândalos na
internet e que teria sido o primeiro a anunciar a prisão dos petistas.
Pode ser que sim, o que apenas leva à pergunta mais para a frente:
quem avisou Cláudio Humberto? Mesmo sem ter a resposta, continuemos a
pesquisar nessa mesma direção: a de procurar saber a quem interessava a
divulgação da história do dossiê e como essa divulgação foi feita. Para
isso, voltemos à região do prédio da PF duas semanas depois.
2. É 29 de setembro, vésperas da eleição presidencial, por
volta das 10h30 da manhã. Sai do prédio da PF na Lapa de Baixo o
delegado Edmilson Pereira Bruno, 43 anos, que estava de plantão no dia
15 e foi o autor da prisão de Valdebran e Gedimar. Ele convida quatro
jornalistas para uma conversa: Lilian Christofoletti, da
Folha de S.Paulo, Paulo Baraldi, de
O Estado de S. Paulo, Tatiana Farah, do jornal
O Globo,
e André Guilherme, da rádio Jovem Pan. Bruno quer uma conversa
reservada e propõe que ela seja feita a cerca de um quarteirão dali, na
Bovinu’s, uma churrascaria. Um dos jornalistas argumenta que ali “só
tem policial”. O grupo acaba conversando perto da Faculdade Rio Branco,
que não se avista da frente da PF, mas é também ali por perto. Ficam na
rua mesmo. O delegado não sabe, mas sua conversa está sendo gravada.
Bruno diz que quer passar para os jornalistas cópia das fotos do
dinheiro apreendido com os petistas, que estavam sendo procuradas há
muito, por muita gente. Leva um CD com as imagens, 23 fotos; e três CDs
em branco para que eles copiem as imagens de modo a que cada um tenha
uma cópia. Fala que eles devem dizer “alguém roubou e deu para vocês”,
para explicar o aparecimento das fotos. Diz que ele próprio vai dizer
coisa parecida a seus chefes na PF, que os jornalistas é que o
roubaram: “Doutor, me furtaram. Sabe como é que é, não dá para confiar
em repórter”. Recomenda que as fotos sejam editadas em computador com o
programa Photoshop para tirar detalhes, como o nome da empresa na qual
as células foram fotografadas, a fim de despistar a origem do material.
Algumas pessoas têm a fita de áudio com a conversa do delegado
Bruno com os quatro repórteres. Mais pessoas ainda a ouviram. Uma delas
é o repórter Luiz Carlos Azenha, que tornou públicos vários de seus
trechos no seu site pessoal na internet “Vi o Mundo, o que nunca você
pode ver na tevê”. (http://viomundo.globo.com/). Azenha, que é repórter
da TV Globo, não quis dar entrevista a
CartaCapital. Pediu que
se procurasse a emissora. Para o que mais interessa ao desenrolar da
nossa história, dos trechos da fita, deve-se destacar a preocupação de
Bruno em fazer com que as fotos chegassem no dia ao
Jornal Nacional.
“Tem alguém da Globo aí?”, pergunta ele. Um dos quatro responde: “Tem o
Bocardi”. “Não é o Tralli? O Tralli está muito visado”, Bruno diz,
referindo-se a César Tralli e ao incidente, conhecido de muitos, de
esse repórter da TV Globo ter podido acompanhar, praticamente
disfarçado de Polícia Federal, a prisão de Flávio Maluf, filho de Paulo
Maluf.
Mas a preocupação principal de Bruno é a que ele reitera nesse trecho: “Tem de sair hoje à noite na tevê. Tem de sair no
Jornal Nacional”.
3. As fotos são divulgadas, como veremos no capítulo
seguinte, com imenso destaque, no dia 29, vésperas das eleições,
repita-se, no
JN. Mas não apenas no
JN. Veja-se a
Folha de S.Paulo,
por exemplo. Lá também a divulgação foi, pelo menos na opinião de
alguns, espetacular: “Que primeira página mais linda, a de 30/9. É por
isso que eu não consigo me separar da
Folha”, escreveu o leitor
Euclídes Araujo, no dia seguinte. “A glosa, a irreverência, a fina
ironia falaram mais alto, mostrando aquela montanha de dinheiro em cima
e, embaixo, Lula, sendo abraçado por uma mão morena e cobrindo o rosto,
como se fosse um meliante conduzido ao distrito, tentando esconder a
identidade. O que eles querem, o
Pravda ou o
Granma? Valeu,
Folha!”
 |
Visita à PF. Primeiro chegaram as equipes de Alckmin e Serra. Depois, os acusados. E por fim os jornalistas |
A
Folha
publicou, com grande destaque na primeira página, a foto na qual o
dinheiro está empilhado de forma que as notas apareçam com a frente
voltada para o leitor e que foi feita de baixo para cima, que é a que
mais dá a impressão da “montanha de dinheiro” citada pelo admirador do
jornal. E não divulgou que as fotos lhe tinham sido passadas por um
policial visivelmente empenhado em fazer com que elas tivessem um uso
político claro, de interferir no pleito de 1º de outubro.
A
Folha também tinha a fita de áudio, que foi levada por sua
repórter. A editora-executiva do jornal, Eleonora de Lucena, não quis
responder por que omitiu as informações dessa fita, a nosso ver tão
relevantes. Alguns dos quatro repórteres que receberam as fotos do
delegado Bruno, ouvidos para esta matéria, disseram em defesa da tese
de que o áudio não deveria ser divulgado, com o argumento de que o
jornalista deve preservar o sigilo da fonte, com o que concordamos. Mas
perguntamos a Eleonora: por que ela não deu a informação de que se
tratava de uma intervenção política no processo eleitoral, publicando
os trechos da fita de áudio, que tornam isso explícito, mas sem citar o
nome da fonte?
O mais curioso, para dizer o mínimo, é que a
Folha publica,
junto com as fotos do dinheiro, uma matéria (“Imagens foram passadas em
sigilo à imprensa”) na qual conta o que o delegado Bruno disse depois,
na tarde do mesmo dia 29, ao conjunto de jornalistas, na frente da PF.
No texto, assinado pela repórter do jornal que recebeu as fotos de
Bruno pela manhã, se diz: “O delegado Bruno disse, ontem, em coletiva à
imprensa, que o CD com as fotos havia sido furtado de sua sala, na PF –
e que ele estava sendo injustamente acusado de ter repassado o material
aos jornalistas”. Pergunta-se: qual é o sentido de publicar uma
informação que a jornalista sabia que é evidentemente mentirosa e, no
caso, ainda ajudava o policial a tentar enganar a própria imprensa?
O Estado de S. Paulo do dia 30 publica a mesma foto, das
notas em posição de sentido. E com um texto, assinado por Fausto Macedo
e Paulo Baraldi, ainda mais incrível, também para dizer o mínimo. O
texto é praticamente uma diatribe contra o PT e em defesa de José
Serra. Diz que a publicação das fotos é a abertura “de um segredo que o
governo Lula mantinha a sete chaves”. Diz que o dinheiro veio de quem
“pretendia jogar Serra na lama dos sanguessugas”. É também uma espécie
de defesa do delegado Bruno, em favor do qual são ditas algumas
mentiras. O texto diz que as fotos foram feitas por “um policial da
Delegacia de Crimes Financeiros (
Delefin)” na sexta-feira dia 15
de setembro. E que o delegado Bruno comandou uma perícia nas notas, a
serviço da Polícia Federal, na sala de conferências da Protege S.A.
Proteção e Transporte de Valores, em São Paulo. De fato, como se
saberia no mesmo dia 30 em que o texto de Macedo e Baraldi sai
publicado, as fotos foram feitas pelo próprio delegado Bruno, depois de
enganar os peritos que analisavam as notas, dizendo-se autorizado pelo
comando da PF. Pela infração, o delegado está sendo investigado por
seus pares.
4. Tanto o
Estado como a
Folha dividem a
primeira página do dia 30 entre a notícia das fotos do dinheiro e uma
outra informação espetacular: a da queda do Boeing de passageiros da
Gol com 154 pessoas, depois de um choque com o Legacy da Embraer, o
jatinho executivo a serviço de empresários americanos. No dia 29, no
Jornal Nacional,
da Globo, no entanto, não há espaço para mais nada: a tragédia do avião
da Gol não entra; o noticiário eleitoral, com destaque para as fotos do
dinheiro dos petistas, é praticamente o único assunto.
 |
A cena. Neste local, próximo da PF, Bruno reuniu-se com repórteres da Folha, Globo, Estadão e Joven Pan |
É
uma omissão incrível. O Boeing partiu de Manaus às 15h35, hora de
Brasília. Deveria ter chegado em Brasília às 18h12. Quando o
JN
começou, a notícia do desastre já corria mundo. No site Terra, por
exemplo, às 20h10 uma extensa matéria já noticiava que o avião da Gol
havia desaparecido nas imediações de São Félix do Araguaia, na floresta
amazônica; e a causa apontada era o choque com o avião da Embraer.
Qual a razão da omissão do
JN? A emissora levou um furo,
como se diz no jargão jornalístico, ou decidiu concentrar seus esforços
no que lhe pareceu mais importante?
Qualquer que seja o motivo, o certo é que a questão da divulgação
das fotos mobilizou a cúpula do jornalismo da tevê dos Marinho. Como
vimos, Bruno fora informado pelos jornalistas que Bocardi, da TV Globo,
estava entre os jornalistas diante da PF no dia 29. Bocardi é Rodrigo
Bocardi, repórter da TV Globo, que atendeu
CartaCapital com
muita má vontade. Disse que a matéria acabara sendo apresentada por
César Tralli e não por ele; e não quis dar mais informações. De alguma
forma, no entanto, tanto a fita de áudio com a conversa de Bruno com os
jornalistas quanto o CD com as imagens do dinheiro foram passados à
chefia de jornalismo do
JN em São Paulo e de lá foram levadas a Ali Kamel, no Rio.
Kamel é uma espécie de guardião da doutrina da fé, o Ratzinger da
Globo, como dizem ironicamente pessoas da organização dos Marinho, que
criticam o excesso de zelo deste que é um editor em última instância de
todo o noticiário político da emissora carioca. A crítica relembra o
papel do cardeal Joseph Ratzinger, atualmente papa Bento XVI, no papado
de João Paulo II.
Compreende-se por que a decisão sobre o que fazer com o áudio e com
as fotos tivesse de ser tomada pelas mais altas autoridades da
emissora. Se divulgasse o conteúdo exato das duas informações, a Globo
estaria mostrando que o delegado queria usar a emissora para os claros
fins políticos que manifestava e que a emissora tinha feito a sua parte
nesse projeto. A saída de Kamel – aparentemente, segundo relato de
terceiros, ouvidos por
CartaCapital, já que ele mesmo não quis
se manifestar – foi a de omitir qualquer referência à existência do
áudio: “Não nos interessa ter essa fita. Para todos os efeitos, não a
temos”, teria dito Kamel. A informação complicava a Globo. A informação
sumiu.
5. O comportamento da Globo na cobertura do caso do dossiê
provocou reclamações de vários funcionários da emissora, desde o
início. Já na segunda-feira após o estouro do caso, dia 18 de setembro,
houve conversas de alguns deles com Luiz Cláudio Latgé, diretor de
jornalismo da TV Globo em São Paulo. A reclamação básica àquela altura
era a de que não havia um tratamento igual para as duas pontas da
história. A ponta que envolvia “a podridão dessa banda sindical
petista”, como dizia um desses funcionários revoltados, referindo-se
aos chefes da operação do dossiê no comitê eleitoral do presidente
Lula, era amplamente noticiada. Já a outra, que envolvia articulações
de Abel Pereira, empresário de Piracicaba, com interesses no Ministério
da Saúde na época dos governos tucanos, era praticamente omitida.
Esse viés anti-PT e pró-tucano, que não foi apenas da Globo, mas
dos principais jornais e revistas da imprensa, fez com que ficasse
quase omitida do noticiário maior a informação de que a história do
dossiê petista começa com a investigação, pelo grupo de inteligência
comandado por Jorge Lorenzetti, da ida de Abel Pereira a Cuiabá,
supostamente para tentar comprar dos Vedoin um outro dossiê, de
informações que poderiam incriminar os tucanos José Serra e Barjas
Negri, ministros da Saúde no governo Fernando Henrique Cardoso. No seu
depoimento à Polícia Federal, após a prisão de Valdebran e Gedimar,
Lorenzetti disse que, tanto Gedimar como Expedito Veloso e Osvaldo
Bargas, outros dois petistas depois acusados de envolvimento no caso,
foram enviados a Cuiabá numa operação de contra-espionagem.
Há provas desse trabalho. Nos dias 23 e 24 de agosto, Abel Pereira
esteve em Cuiabá e foi espionado por um fotógrafo, contratado por
Gedimar e Veloso, que flagrou o empresário na saída do Hotel Taiamã.
Segundo Lorenzetti disse à PF, Abel tentava comprar, por 10 milhões de
reais, as informações de que os Vedoin tinham contra os tucanos. A
Polícia Federal tinha também três telefonemas de Abel para um parente
dos Vedoin no dia 14 de setembro, data em que parece ter sido feito o
acerto entre os petistas e os empresários da venda das ambulâncias
superfaturadas conhecida como “operação sanguessuga”. Os telefonemas de
Abel são outra indicação de que dossiês – e não apenas um – estavam
sendo disputados. O dia 14 de setembro é também a data em que Bargas e
Veloso acompanharam a entrevista da
IstoÉ com os Vedoin e que
resultou na reportagem de capa da revista naquela semana. A matéria
mostrava o que é de conhecimento de todos os jornalistas que
pesquisaram minimamente o assunto: que 70% das 891 ambulâncias
comercializadas pela Planam, a empresa dos Vedoin, entre 2000 e 2004,
tiveram suas verbas liberadas nas gestões de Serra e Negri.
É absolutamente razoável supor que Serra e Negri sejam pessoas
acima de qualquer suspeita. É também razoável supor que as negociações
de Abel com os Vedoin sejam lícitas, mesmo porque não é crime comprar
informações. É também justo ficar indignado com o baixo nível da
política que se fundamenta no esforço de provar que o candidato
adversário ou é ladrão ou está ligado a ladrões. Mas pergunta-se: por
que achar que os petistas são os piores de todos os políticos, a
priori, sem investigar o outro lado? Essa era a pergunta que faziam à
direção da Globo alguns dos seus funcionários de São Paulo.
6. Outra omissão relevante na cobertura, que mostra o
partido que a imprensa conservadora assumiu no caso, é o pouco destaque
dado ao comportamento do procurador da República Mário Lúcio Avelar,
que comandou o desencadeamento da operação que levou à denúncia da
compra do dossiê pelos petistas. Avelar é o mesmo procurador cujo
trabalho resultou na divulgação, no começo de 2002, das fotos de
dinheiro apreendido na firma Lunus, do marido da atual candidata ao
governo do Maranhão, Roseana Sarney. Na época, ela era pretendente ao
cargo de candidata da coligação PSDB-PFL para disputar a Presidência da
República contra Lula. E as pesquisas de opinião pública mostravam
àquela altura uma ascensão espetacular de seu nome, como um dos
favoritos a desempenhar o papel do anti-Lula. As preferências pelo nome
dela nas pesquisas de opinião pública aproximaram-se dos índices que
Lula tinha na ocasião e superaram as marcas do outro, que, afinal,
acabou sendo o candidato da coligação conservadora, José Serra. Com a
divulgação das imagens do dinheiro apreendido, também numa operação da
Polícia Federal, como agora, também com o vazamento das fotos para a
imprensa e, especialmente, para o Jornal Nacional, Roseana despencou
nas pesquisas e acabou ficando fora do pleito. Mais tarde, ao fim das
investigações, o dinheiro foi devolvido à Lunus e se concluiu que nada
tinha ocorrido de ilegal.
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Assunto único. No Jornal Nacional, não houve espaço para o avião da Gol |
Avelar
era, na época, procurador da República em Tocantins. De lá foi afastado
no fim de 2002 pelo então procurador-geral da República, Geraldo
Brindeiro, por ter indiciado políticos com mandato, sem ter competência
legal para fazê-lo (só o procurador-geral pode decidir por esse tipo de
ação). Em Mato Grosso, para onde seguiu depois, Avelar foi o comandante
jurídico da Operação Curupira, conduzida pela Polícia Federal contra
funcionários do Ibama e madeireiros, na qual foram presas 93 pessoas,
entre elas Antônio Carlos Hummel, o diretor de florestas do Ibama.
Hummel foi para Cuiabá algemado; pegou quatro noites de cadeia; foi
liberado; e, depois, completamente inocentado. Avelar acabou
confessando ao delegado que chefiou a investigação, depois de
acompanhar o depoimento oficial de Hummel, que nem sequer devia tê-lo
indiciado.
No caso do atual dossiê, logo no início da denúncia contra os
petistas, Avelar insinuou que o dinheiro para pagamento aos Vedoin era
público. Disse, em tom de ironia: “Veja bem, estamos falando de um
partido político (o PT) que tem o comando do País. Não tem mais nada...
Só o País. Pode sair de onde o dinheiro?” No dia 19 de setembro, Avelar
pediu a prisão preventiva de Freud Godoy, uma espécie de segurança
pessoal do presidente Lula, que de início passou vários dias em grande
destaque nos jornais como o homem que teria comandado a operação de
compra do dossiê. O juiz Marcos Alves Tavares, da Segunda Vara Federal,
rejeitou o pedido de prisão feito por Avelar, e, além da argumentação
contra o pedido, escreveu: é, “no mínimo, contraproducente que um
pedido de prisão temporária seja divulgado na imprensa antes de sua
análise pelo juízo”. Desde a manhã circulava a informação da prisão de
Freud pela internet.
Avelar voltou à carga e pediu a prisão preventiva de Bargas,
Lorenzetti, Freud, Veloso, Gedimar e Valdebran, no dia 25 de setembro,
às 21 horas, três horas antes, portanto, do horário a partir do qual
não são mais permitidas as prisões de qualquer cidadão, a não ser em
caso de flagrante delito, em virtude da realização de eleições. A juíza
Adverci de Abreu autorizou as prisões e enviou a ordem para a PF, onde
o mandado chegou à 1h30 da madrugada; já, portanto, fora do prazo.
Alguns jornais, na linha de ataque ao PT, noticiaram a história com
manchetes do tipo “salvos pela Justiça Eleitoral”. Avelar comentou,
reclamando de não poder continuar as investigações: “Houve um pedido de
prisão. A juíza concedeu, mas não pôde prender por causa do período
eleitoral. Tem uma investigação. Ela vai ter de parar por causa do
processo eleitoral?”
7. A investigação do procedimento de Avelar é importante por um motivo que o jornalista maranhense Walter Rodrigues, que ajudou
CartaCapital
na preparação dessa matéria, chama de “o modus operandi” do tipo de
infração no qual o promotor pode estar se especializando. Ela pode ser
definida assim:
Vive-se um período eleitoral. Procuradores e policiais estão
ativos, investigando diversos tipos de delito. E começam a misturar os
trabalhos que estão fazendo com suas preocupações partidárias. E aí se
desviam do mandado que receberam, passando a investigar pessoas e
entidades adversárias.
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Modus operandi. O comportamento de Avelar ainda não mereceu uma investigação de peso |
Isso
é uma grave violação de princípios da Justiça. Como se sabe, na Idade
Média, não havia um mandado para investigação: não se investigavam
delitos; investigavam-se pessoas. Para exemplificar com o caso em tela:
o mandado para a investigação de Cuiabá não era contra os Vedoin,
pessoalmente. Era uma investigação de superfaturamento de ambulâncias e
de suborno de parlamentares. No meio da investigação surgem os
telefonemas dos arapongas do PT.
Mas do que os petistas do caso do dossiê são acusados? De comprar
informações? Não, porque este não é um crime tipificado em lei. Porém,
como não é a um crime, mas ao PT que se persegue, é preciso achar outro
crime que os petistas possam ter cometido. Depois de ouvir o presidente
do PT, Ricardo Berzoini, dizer que comprar dossiê não é crime, o jornal
O Globo, dessa quinta, saiu exatamente à cata desses crimes.
Encontrou advogados que lhe permitiram dizer: “Há duas hipóteses de o
episódio vir a configurar crime. A primeira, se for comprovada a origem
ilícita do dinheiro apreendido com os petistas Gedimar Passos e
Valdebran Padilha. Nesse caso, os envolvidos poderiam ser processados
por crime de ocultação de valor proveniente de ilícito (...) A segunda
possibilidade é a de o dossiê conter falsas provas, configurando crime
eleitoral de obtenção de documento material ou ideologicamente falso,
para fins eleitorais”.
Os petistas já foram presos, agora trata-se de achar os crimes que possam ter cometido.
*Colaborou Antônio Carlos Queiroz
NÃO DEU NO JORNAL NACIONAL
Por que uma reportagem sobre Abel Pereira, produzida e editada, não foi ao ar? E outras nove perguntas a Ali Kamel
Por Mauricio Dias
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Resposta. O diretor de jornalismo da Globo considera a cobertura isenta |
Na quarta-feira 11, a revista
CartaCapital encaminhou 10 perguntas à Rede Globo, indagando sobre os critérios da cobertura jornalística adotados no
Jornal Nacional durante o primeiro turno da eleição presidencial.
Eis as questões dirigidas ao jornalista Ali Kamel, diretor-executivo de Jornalismo da emissora:
1. Qual foi o critério adotado para a distribuição de tempo
e espaço para os candidatos? Qual o princípio que norteou o critério
adotado?
2. O critério adotado para esta eleição presidencial foi o
mesmo das eleições anteriores ou, mais precisamente, o mesmo da eleição
de 2002?
3. Por que, a partir do estouro do escândalo do dossiê, o
Jornal Nacional não citou que 70% das ambulâncias da Planam foram liberadas na gestão do PSDB?
4. O
Jornal Nacional, como ocorreu na edição de 23 de
setembro, faz referência, com precisão, aos petistas Oswaldo Bargas,
Jorge Lorenzetti e Expedito Veloso como “assessores da campanha do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, mas, quando se refere, nesse
mesmo dia, às relações do senhor Barjas Negri com Luiz Antonio Vedoin,
da máfia das ambulâncias, diz que ele é “ex-ministro do governo
passado”? Não há, no caso, um tratamento desigual? (Em várias edições
essa situação se repete.)
5. Por que, em nenhum momento, o
JN não destacou um repórter para a investigação das relações de Barjas Negri e Abel Pereira em Piracicaba?
6. Temos informações seguras, que podem ser confirmadas pela equipe do
SP-TV, de que um diretor da Globo vetou perguntas politicamente incômodas para o candidato a governador José Serra.
7. Na cobertura das eleições para o governo de São Paulo, os
repórteres receberam a orientação de fazer entrevistas com os
candidatos, nas ruas, com perspectivas propositivas. Ao candidato do
PT, Aloizio Mercadante, não era dado espaço para falar do PCC e da
perda de controle da ação policial no estado. Contrariamente, na
campanha presidencial, era dado espaço amplo para críticas (justas ou
injustas, não entramos no mérito) ao candidato Lula.
8. Sabe-se que foram produzidas matérias (pelo menos uma)
sobre Abel Pereira. A reportagem foi editada, mas não foi ao ar. Qual o
critério adotado nesse caso?
9. A Globo tem o áudio da conversa do delegado que entregou
as fotos do dinheiro para a imprensa, mas não o divulgou. Além disso,
adotou critérios diferentes para divulgar as fotos (obtidas
ilegalmente) na véspera da eleição e não divulgar o dossiê de Cuiabá
sob a alegação de que o material estava sob suspeita.
10. É fato que até hoje os telespectadores do
JN não
viram o governador eleito de São Paulo, José Serra, discursar na
cerimônia de entrega das ambulâncias, ao lado de deputados
sanguessugas. Por quê?
Eis a resposta do jornalista Ali Kamel:
“Se tem uma coisa que tem alegrado a nós, jornalistas da TV Globo,
é o alto grau de isenção que temos conseguido imprimir na cobertura
dessas eleições. Essa nossa convicção vem de três fontes: nossa própria
avaliação, que é diária e procura verificar se temos nos conduzido com
a isenção a que nos propusemos; a avaliação do público, que nos chega
diariamente por nosso Centro de Atendimento ao Telespectador, com
milhares de telefonemas e e-mails, e pela manifestação de todos os
partidos políticos que têm atestado a isenção de nossos telejornais.
Uma das mais recentes manifestações nesse sentido veio do próprio
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, em carta à TV Globo,
justificando a ausência no debate na antevéspera da eleição, escreveu:
‘Aproveito para reafirmar o meu respeito à TV Globo e parabenizá-la
pelo trabalho isento que vem fazendo na cobertura destas eleições’”.
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Ouça gravação do delegado Bruno sobre o JN