Existem muitas definições do que vem a ser um lugar realmente
civilizado. Seria o lugar em que você pode comprar um “El País” ou um
capuccino a qualquer hora da noite ou — a definição que eu prefiro — um
lugar em que você pode pisar numa faixa de segurança com a certeza
absoluta de que os carros pararão para você passar. São as relações
entre motorista e pedestre que determinam o grau de civilidade de uma
sociedade moderna, e a grande diferença entre o primeiro e os outros
mundos é que num o pedestre é respeitado e nos outros o pedestre é um
estorvo, a ser corrido da frente a buzinadas. Na Alemanha, como em
outros países da Europa, a deferência dos carros a pedestres e
ciclistas é completa. Além das faixas para atravessar a rua em que o
pedestre é soberano, e ai de quem tocá-lo, existem ciclovias por toda
parte com igual segurança para os ciclistas. Mas acontece uma coisa
curiosa: os ciclistas não têm o mesmo respeito pelos pedestres que
recebem dos motoristas. A arrogância e a prepotência que estamos
acostumados a ver nos nossos motoristas, na Europa — ou pelo menos na
Alemanha — se transferem para os ciclistas, que, estes sim, correm com
os pedestres que atravessam a sua frente com buzinadas furiosas, e não
respeitam faixas de segurança. Se você se distrair e caminhar numa
ciclovia se arrisca a ouvir, além das buzinadas indignadas mandando
você voltar para o seu lado da calçada, comentários sobre a vida
pregressa da sua mãe que ficam muito pior em alemão. Talvez a definição
de país civilizado seja esta: um lugar em que ciclistas se sentem tão
seguros que desenvolvem uma espécie de delírio de poder. Podem tudo,
nas suas vias exclusivas. E, de um jeito ou de outro, o pedestre está
condenado a ser o que sai da frente.
E já se disse, com um certo exagero, que de um jeito ou de
outro toda a história moderna da França tem alguma coisa a ver com
“l’affaire” Dreyfus, o militar acusado de traição e depois reabilitado
cujo caso dividiu o país — e, pelas notícias da recente celebração dos
cem anos da sua reintegração ao exército, ainda divide. Desde a
reintegração discute-se os tipos de homenagem que podem e devem ser
feitas a Dreyfus e é a resistência de militares conservadores que tem
impedido algumas, como a transferência dos seus restos mortais para o
Pantheon. A questão do anti-semitismo, que seria a principal causa da
perseguição a Dreyfus, ainda é delicada, tratando-se da comunidade
militar francesa, e há um certo cuidado em não reabrir feridas, embora
as feridas já tivessem cem anos para sarar. Quando o ministro da
Cultura da época Jack Lang propôs que fosse erguida uma estátua a
Dreyfus na École Militaire, o velho e pragmático Mitterrand disse:
“Deve-se dar aos militares um exemplo, não um remorso.” Parece que esta
ainda é a política do governo francês. Talvez dentro dos próximos cem
anos o caso Dreyfus descanse em paz.